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© UNESCO/Yves Bergeret
Segundo a tradição, a cobra-de-capelo é uma guardiã da língua toro tégu (“palavra da montanha”), falada pela população Dogon, em Mali.
A pedra é uma palavra mineralizada, a água é uma palavra sorridente, a semente lançada na terra é uma palavra em promessa: para a língua toro tégu, falada atualmente por 5 mil dogons, no norte de Mali, cada elemento da realidade é concebido como sua parte integrante.

Pela 20ª vez, faço uma visita de trabalho aos pintores dogon de Koyo, no planalto situado no topo de sua montanha, ao norte do Mali. Em plena escuridão da noite, estamos deitados em esteiras diante da casa de taipa que, no centro da aldeia, me foi atribuída: apesar da estafa, os pintores-camponeses e eu próprio estamos felizes com os poemas-pinturas sobre tecido que, algumas horas antes, em pleno sol, havíamos criado. O mais jovem dos pintores prepara o chá. A conversa fluía animada sobre os antepassados.

De repente, sinto uma dor muito forte na minha mão esquerda; acendo minha lanterna e consigo matar o escorpião branco que acaba de me picar. No meio de minha aflição, imagino que só me resta uma hora de vida. Depois, penso que ainda tenho uns trinta minutos de tranquilidade relativa antes do desencadeamento das convulsões. Solicito, então, ao chefe da aldeia se ele dispõe de um medicamento tradicional dogon para esse veneno: “Não”, é a sua resposta, “mas fique tranquilo”. A conversação é retomada. A queimadura em minha mão estende-se ao meu braço, além de uma intensa dor, mas, ao fim de duas horas, todo esse mal-estar desapareceu. Então, ao lado do chefe da aldeia que fez questão de permanecer na palhota, consegui dormir profundamente. O que teria acontecido? Mistério.

Três dias mais tarde, nosso grupo de oito pessoas – seis pintores, o chefe e eu próprio – chegou ao sopé da falésia bastante elevada, a uma dezena de quilômetros da aldeia, de onde se precipita, após cada tempestade da estação das chuvas, uma enorme cachoeira. O lugar em que a água ribomba, fala e canta praticamente durante todo o verão é fonte de inúmeras lendas. Grotas protegidas por ritos de iniciação estão repletas de antiquíssimos signos gráficos. Sei, também, que elas são o covil de temíveis cobras-de-capelo. Ao falar com os pintores a esse respeito, pergunto-lhes se eles têm um medicamento contra o veneno desses animais: “Não. Mas, sente-se. Vamos explicar o que se passa”.


© UNESCO/Yves Bergeret
Para os habitantes de Koyo, o cimo da montanha encarna a palavra em toda a sua pujança. Tal poder se enfraquece ao pé da encosta.
Toda a realidade é palavra

Neste momento, procuro reunir o que me foi transmitido nessa manhã com o que eu havia aprendido anteriormente, por meio dos signos gráficos criados pelos pintores quando exprimimos, em nossos poemas-pinturas, a vida profunda desses lugares.

Toda a realidade é palavra. Esta amadurece e alcança sua perfeição no planalto situado no cimo da montanha. As belas pedras redondas ou lisas são uma espécie de palavra densa mineralizada. A água é a palavra sorridente, o céu é sua longínqua prefiguração, a nuvem sua gestação e a chuva sua jubilosa aclamação. A semente lançada na terra é uma palavra em promessa: se o agricultor canta, ele fortalece sua capacidade de fertilidade. Cultiva-se a terra com a enxada e com a palavra cantada.

A língua de meus companheiros chama-se, aliás, toro tégu (palavra da montanha). Ela faz parte da quinzena de línguas dogon e conta com 5 mil falantes. À população dogon desta etnia atribui-se a denominação de toro nomu, ou seja, “povo da montanha”.

O caráter peculiar da comunidade de Koyo, cerca de 500 pessoas, consiste em ativar a fertilidade da palavra pelas práticas agrícolas e pelos ritos. A comunidade decompõe-se em pequenos grupos de seis a oito integrantes que permanecem unidos para sempre e se reúnem, no mínimo, para uma refeição cotidiana: o grupo encarregado dos silos coletivos que são “reservatórios de palavra”; o grupo incumbido dos ritos para implorar a vinda da chuva; o grupo que se ocupa da manutenção das trilhas para subir a falésia, etc. Cada grupo tem, evidentemente, seu antepassado de referência e orienta sua ação unicamente em favor da comunidade.

A harmonia dinâmica da realidade é regularmente restabelecida por cânticos e danças, durante cerimônias noturnas, de um grupo especializado formado por “mulheres idosas”. Na sua coreografia, elas executam periodicamente, com o braço direito, um amplo gesto horizontal cuja significação é a seguinte: semear a palavra é como lançar a semente na terra.


© UNESCO/Yves Bergeret
“Casas dos Pintores”, na aldeia dogon Boni. O tema da serpente é visível, à direita.
A palavra em ação

Desde 2002, os pintores, o chefe da aldeia e eu próprio – o poeta da palavra escrita – formamos um grupo de palavra. Em cima do tecido ou do papel – estendidos, à semelhança do mais delicado húmus das culturas hortícolas, sobre a laje de rocha lisa –, coloco «as sementes» do poema, enquanto eles depositam “as sementes” dos signos gráficos. Em seguida, expostos por toda parte, no mundo, esses panos e papéis garantem uma fonte de recursos financeiros; ora, essa “colheita” é que alimenta a aldeia. Assim, conseguimos construir uma escola, cinco açudes que permitiram duplicar a superfície de cultivo e três “casas dos pintores” que podem ser visitadas, no âmbito de um projeto de desenvolvimento da aldeia [ver “Koyo, um lugar para o diálogo entre duas culturas”, Correio da UNESCO, n° 4, 2008, Em foco].

Nosso grupo adotou 2 antepassados como referência por ter engendrado, rapidamente, outros grupos de palavra para se ocuparem, seja das atividades escolares, seja das “casas dos pintores” ou das outras iniciativas de nosso projeto de desenvolvimento. “Tomamos a decisão de aceitar você como dogon”, dizem-me os pintores, “e, a seu nome, você deve acrescentar o nome desses dois antepassados. Há cinco séculos foi integrado à nossa cultura o último estrangeiro: foi ele quem desenhou os signos gráficos em uma das grotas perto da grande cachoeira. Ele é um de nossos dois antepassados de referência; mas agora ele é o penúltimo estrangeiro integrado porque o último é você”.

Segundo os toro nomu, tudo o que se encontra no cimo da montanha é palavra em ação e em harmonia com ela própria; entre seus elementos, encontram-se também os animais. Em compensação, tudo o que fica abaixo do nível desses planaltos do cimo – um barranco, um desfiladeiro e até mesmo a planície de 40 quilômetros entre dois planaltos – é designado pelo nome genérico de pondo: aí, a palavra é frágil, sem forma, sinuosa e inspira pouca segurança. Em particular, a palavra dos agricultores nômades é que, há vários séculos, domina a planície de uma forma feudal.

“Nossos numerosos macacos servem-se desordenadamente da palavra”, continuam os pintores. “Pelo contrário, ela é defendida pelos escorpiões e pelas cobras-de-capelo que não hesitam em matar os estrangeiros; mas esses animais nunca ousam nos atacar”.

“Ah, é por isso que, numa noite dessas, fui picado por um escorpião!”

“Que nada! Você ainda não entendeu o que se passa. Vamos lá, preste atenção: você está falando toro tégu, tornou-se dogon. Ao picá-lo, o escorpião cometeu um erro. Afinal, quem morreu ? Ele ou você?”

Yves Bergeret, poeta francês

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One Comment

  1. ESTOU ESTUDANDO A CRIAÇÃO DA MEMÓRIA COMUM ENTRE JOVENS DE ESCOLAS PÚBLICAS ATRAVÉS DO TEATRO ESPONTÃNEO E SINTO QUE ESTAS CATEGORIAS MANTÉM ESTREITA RELAÇÃO COM OS GRIOTS E A PALAVRA CORPO. OBRIGADA PELO TEXTO…


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