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@casa das africas

Leite, Fábio

A problemática específica deste texto refere-se exclusivamente à questão da não-utilização da escrita por parte de sociedades da África negra que não adotaram esse aparato para fins de apreensão e transmissão do conhecimento e dos dispositivos civilizatórios, que constituíram para essa finalidade. Trata-se portanto de apreciar tão somente a questão da palavra, conceito para o qual se pretende atribuir significado abrangente.

Antes de abordar o assunto, parece útil voltar a afirmar que os estudos e análises relacionados com as sociedades negro-africanas formulam-se, pelo menos no campo das ciências sociais, em duas principais correntes que, por questões de método, levam necessariamente à conclusões diversas e, no mais decisivo, geralmente conflitantes.

Uma delas, que se pode denominar com brandura de visão periférica, nasce do pensamento dominado por uma metodologia não-diferencial eivada de preconceitos e fundamentada nos limites de suas proposições que, pela sua própria essência, não atingem o núcleo de outras realidades históricas.

Isso tem acarretado com freqüência a cristalização equivocada de conceitos, teorias, proposições e toda forma de reflexão sobre a África negra e suas sociedades que, muitas vezes enunciados por autores de prestígio no ocidente, acabam se tornando verdades internalizadas em bibliografias que se repetem.

Essa visão periférica é ainda impactada negativamente pela pouca pesquisa de campo e fragilidade de dados realmente concretos, indispensáveis ao conhecimento das sociedades de que se deseja falar, ocorrendo pela combinação desses fatores a configuração da África-objeto a ser dissecada e observada nos microscópios equipados com lentes impróprias para não dizer partidas.

A essa visão periférica opõe-se outra corrente, que se pode denominar de visão interna, nascida de uma metodologia diferencial, isto é, uma metodologia cujos limites são estabelecidos por uma dada realidade concreta seja ela qual for e não por outra. Isso é decisivo no processo progressista de conhecimento de vez que faz captar a imagem da África-sujeito e liga-se a uma atitude que deseja conhecer tanto a estrutura como a dinâmica dos processos.

Para os fins deste texto, não parece necessário apresentar um elenco de proposições a respeito da África negra segundo essas duas grandes posturas. Basta exemplificar com o caso das sociedades negro-africanas que não se utilizam da escrita.

No caso da visão periférica (África-objeto) a proposta é a de que as sociedades da África negra não dotadas de escrita constituem núcleos sociais de pequeno poder de comunicação, formulando uma categoria histórica que impacta toda a dimensão civilizatória dessa sociedade: o conhecimento e sua transmissão, o pensamento crítico, as universalizações e abstrações, os processos educacionais, a história, etc. são necessariamente limitadas pela ausência da escrita.

O resultado é que essas sociedades são assim assemelhadas àquelas onde existe um grande número de indivíduos analfabetos constituindo entrave sério ao que se costuma chamar de “progresso” ou “desenvolvimento”.

Já no caso da visão interna (África-sujeito), não se confunde ausência de escrita com analfabetismo. O conceito de analfabetismo é estrangeiro às sociedades da África profunda onde o conhecimento é elemento estruturador da realidade, construído a partir de valores próprios: na verdade, nessas sociedades a escrita é considerada um fator externo à pessoa e por essa razão impacta negativamente os processos de comunicação.

Para as práticas sociais que se desenrolam nesse universo, elas se utilizam da palavra, considerada elemento vital da personalidade. Cabe aí uma tentativa de fundamentação dessa realidade.

Um primeiro aspecto relativo à problemática é, no entender aqui expresso, a relação da palavra com a chamada força vital ou, preferivelmente, forças vitais (de vez que esse conceito pode ser aprendido diferencialmente e sob várias formulações segundo a realidade a ser apreciada).

A questão, objeto das preocupações de Tempels (1969) e Kagame (1976), refere-se ao elemento vital natural configurado no ser-força ou força-ser, que constituem uma única e só instância. O homem é, portanto, força vital ou, em visão posterior, uma síntese de elementos vitais que se encontram em interação dinâmica permanente. (Leite, 1984). Ora, nos processos primordiais da criação, seu responsável, o preexistente, não raro utilizou-se da palavra, isto é, usou de sua própria substância configurada em energia, fluído ou sopro vitais, para desencadear o processo, o qual inclui o mundo e o homem.

Este guarda dessa forma importantes parcelas dessa criação primordial, portanto do próprio preexistente, que é capaz de criar pela força vital/palavra. Pertencendo esse binômio ao homem é também atributo da sociedade que, devido à sua origem, a sacraliza, razão pela qual muitas exteriorizações da palavra sejam consideradas sagradas e até mesmo interditas aos não-iniciados. O conjunto força vital/palavra é portanto elemento primordial da personalidade e da sociedade, desdobrando-se desde as instâncias mais abstratas até às práticas sociais.

Eis aí um conflito incontestável existente entre os dois tipos de análise antes apontados, pois que nesse caso tratamos com a abordagem de problemas que as sociedades ocidentais e industriais não se colocam porque a organização da existência e a explicação da realidade partem de pressupostos iniciais diversos.

Um outro aspecto, ligado à importância da palavra, em sociedades negro-africanas, diz respeito às formas históricas assumidas pelos processos sociais.

Na África profunda, a estruturação dinâmica desses processos tem por base o exercício de papéis e relações sociais em todos os níveis que possibilitam a existência contrapondo-se à organização instaurada por meio de instituições sociais. No primeiro caso temos a otimização da ação humana direta e, no segundo a intermediação de processos de tendência instrumental. É daí que nasce o chamado humanismo africano: nessas sociedades o homem com suas propriedades naturais e sociais totais, constitui realmente o sujeito da ação.

Essas características, fundamentais para chegar-se à concretude da problemática, só fazem impor a palavra à escrita nessas sociedades. Nelas, a escrita constitui-se em elemento técnico convencional e exterior à personalidade, enquanto a palavra transparece como o limite máximo do conhecimento e da comunicação.

A escrita liga-se à instrumentalização, a palavra à ação do homem e à relação social direta. É por isso que nessas sociedades, aliás plenas da mais complexa simbologia, grafada ou não, a escrita não foi adotada, decidindo-se pela observância das normas ancestrais que propuseram a otimização do humanismo que deve reger a vida, cabendo à palavra um papel decisivo nesse processo: sua utilização permite a captação mais vital da realidade, do conhecimento e sua transmissão.

Na opinião aqui registrada, a palavra constitui um universo concreto revelador das principais proposições históricas de uma dada sociedade, sendo capaz de explicar a organização do mundo e da realidade, bem como, as práticas sociais globais, a captação, exercício, acúmulo e transmissão de conhecimento, segundo valores civilizatórios próprios nascidos de sua identidade profunda.

Nesse sentido, é um processo social interativo em várias instâncias mais imperiosas, com o que tende a explicar sistematicamente as diversas configurações da história e da vida em fluxo. Assim, cada evento decisivo da sociedade e nela perpetuado sob a forma de valor decisivo constitui uma palavra ou seja, constitui um enunciado abrangente com seus respectivos desdobramentos destinados a objetivar fatores cruciais. Designa-se dessa forma sob o termo geral da palavra o conjunto de enunciados históricos vitais existentes referentes a uma dada sociedade que a explica no tempo e no espaço.

Diante desses pressupostos, é de se considerar que a palavra não deve ser confundida com a oralidade humana, embora esta seja um de seus instrumentos e uma das suas manifestações.

Para apreciar brevemente essas idéias, pode-se abordar alguns aspectos da palavra com dados nascidos de sua concretude. Esses dados envolvem principalmente os complexos culturais Banto, Akan, Senufo, Yoruba, Ewe-Adja-Fon, Dogon, Bambara, Mossi e Lobi, obtidos na bibliografia e em pesquisa de campo realizada no continente africano pelo autor durante quatro anos continuadamente.

Um desses aspectos é o da oralidade humana com utilização da voz com maior ou menor freqüência de vez que não raro a pausa, o silêncio, adquirem grande significado. A suposição é a de que a oralidade pode exercer uma influência sobre o alvo de sua atenção o qual, por sua vez, possuiria sua própria palavra ou energia vital e reage diante dela. É um processo dinâmico, portanto, que supõe interação.

Essa dimensão da palavra pode ser particularmente bem observada, dentre outros: entre os tecelões, cujo trabalho, em seu significado profundo, está relacionado com a trama da própria vida; entre os ferreiros, com sua atribuição de domesticar a natureza, pois que dominam os quatro elementos e os colocam a serviço da tecnologia suficiente que supre a sociedade; entre os médicos, com sua interação com os reinos da natureza dos quais utiliza seus fluxos vitais; entre os advinhos, familiarizados com sistemas matemáticos que permitem o acesso ao conhecimento esotérico; entre os artistas, que possuem o domínio da estética e da arte segundo valores precisos da natureza e da sociedade; entre os caçadores e pescadores, que interagem com os entes da terra e das águas; entre os historiadores, que atuam no campo das práticas sociais, constituindo a memória coletiva e individual e, muitas vezes, instrumentos políticos, quando relatores das práticas ligadas ao poder; entre bruxos e magos, que conseguem o acesso às instâncias das natureza que não são do domínio geral visando ações sobre as pessoas e os acontecimentos.

É necessário registrar ainda a oralidade humana em suas relações com a democracia e o poder nas sociedades negro-africanas. Seu exercício, nos Conselhos de família e de comunidade, trazem na verdade a palavra ancestral dentro dos princípios que definem a senioridade e a sabedoria, invocando a jurisprudência dos antepassados para solução de problemas, muitas vezes à sombra da árvore das discussões, sempre encontrada nas aldeias pois que instrumento dessa democracia.

É de se lembrar, ainda, que devendo a decisão ser adotada por unanimidade, às vezes não se chega a acordo final nem mesmo nas instâncias superiores. A questão é então entregue à máscara apropriada, que se apresenta e manifesta sua palavra, instituindo a decisão última e irrecorrível.

Dentro dessa proposição abrangente acerca da palavra, é possível ainda lembrar da oralidade e de determinados instrumentos e aparatos. Assim, quando o preexistente ou outro ente sobrenatural — ancestral ou divindade — emite sua voz, ela não se assemelha à dos homens. Devido a isso, existem instrumentos de sopro ou vibração, destinados a imitar essas vozes e que são utilizados em funerais e outras cerimônias reservadas.

Entre os Dogon, a terceira palavra revelada aos homens envolve dentre outras problemáticas a criação do tambor de axila, feito pelo próprio preexistente que o entregou aos homens para que com ele se comuniquem (Griaule, 1966). Os Akan possuem seus célebres tambores de fala, sendo possível destacar o “Tchereman”, que é tido como um ser vivo, portador de sua própria palavra, também criado pelo preexistente e considerado a voz não do indivíduo mas da sociedade.

O universo simbólico também constitui e integra essa concepção de palavra. Dada a íntima relação existente entre história e arte negro-africana, há que considerar da existência desse tipo de palavra em sua linguagem própria que oferece proposições específicas e plasma valores de uma determinada sociedade.

É o caso das esculturas, monumentos e máscaras; dos pesos de pesar ouro Akan, com seus tipos concretos e abstratos em número imenso, cada um possuindo sua história e significado próprios; da arquitetura e sua simbologia, como na habitação Dogon que reproduz parte dos processos primordiais de criação; do teatro sagrado, o qual inclui todo um bestiário sacralizado e grande número de figurinos, cuja proposição é a de criar microcosmos da sociedade à busca de explicações para a realidade e transmissão do conhecimento.

Mas há também a palavra do gesto, do movimento — cuja proposta básica é, como nos demais casos, a da transmissão de modelos sociais ancestrais — envolvendo a noção de pessoa, nisso incluído também o corpo que é socializado e sacralizado mediante atos iniciáticos precisos para que adquira autonomia no exercício da palavra das danças e das narrativas gestuais não faladas ou acompanhadas de vozes ininteligíveis, como ocorre com certas máscaras, cujo movimento tem sentido preciso mas que muitas vezes precisa ser decodificado por agentes específicos.

A palavra negro-africana, o sentido abrangente que se procurou evidenciar na tentativa de não relacioná-la meramente com o sofrido conceito de tradição oral, constitui universo privilegiado da identidade profunda dessas sociedades. Abrange certamente um extenso leque de realidades e proposições, inclusive aquela dimensão das práticas cotidianas.

Na síntese, configura-se em duas modalidades: a palavra exotérica, de domínio mais extenso e comum, incluindo simbologias, gestualísticas, oralidades humanas e não-humanas ligadas aos processos menos complexos de socialização; e a palavra esotérica, de domínio restrito aos nela iniciados, que atinge os mais elevados níveis de conhecimento e abstração.

Esses iniciados, mestres da palavra, precisam estar embebidos dos valores profundos da sociedade a que pertencem, possuindo vastos conhecimentos sobre o homem e sobre o universo específico de atuação, o que exige iniciação diferenciais, notável memória e capacidade de visualização, além naturalmente do domínio gestual e oral, o todo significando sabedoria e humanismo.

Vale dizer que não obstante a presença de processos históricos abrangentes e tendentes à universalização, que impactam fortemente valores civilizatórios peculiares, não tratamos com “restos culturais” de uma África em vias de desaparecimento, como podem fazer supor aos menos avisados a metodologia equivocada e o preconceito.

As sociedades negro-africanas têm grande intimidade com as adversidades históricas, algumas extremamente cruéis, garantindo, não obstante, sua continuidade histórica. Isso se aplica à palavra, que permanece como um dos elementos dessa continuidade histórica, como no exemplo da saga de Soundjata, herói da epopéia Mandenka culminada em 1235 e que constitui ainda a primeira palavra que se ensina aos jovens Malinké.

* Texto originalmente publicado, com pequenas modificações, em Democracia e Diversidade Humana. Juana E. Santos (Org.) SECNEB, Salvador (1992)

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Fábio Leite. Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (USP)

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